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“... Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra.” (Jo 8,7)
“... Ninguém te condenou... ela respondeu: ‘Ninguém, Senhor.’ Então, Jesus disse: ‘Eu também não te condeno. Vá e não peques mais’.” (Jo 8,10-11)

Na década de 1970, um psicanalista americano, Karl Menninger, escreveu o livro O pecado de nossa época. Muitos de seus colegas de profissão se manifestaram contra o tema, mas o autor fundamentou com elementos da História e de sua pesquisa – em uma rua movimentada de Nova York colocou um homem com veste sóbria que escolhia um passante, aleatoriamente e apontava: “Culpado!”. As pessoas ligadas à pesquisa iam atrás dele e perguntavam: “O que você pensou quando ouviu a palavra culpado?” As respostas foram muitas, desde “Estacionei o carro em lugar proibido” a “Se minha família soubesse...”
O psicanalista, então, faz uma investigação histórica e mostra que, na Bíblia, muitas vezes os profetas falam para o povo sobre o pecado. O autor lembra a passagem de Jonas por Nínive (Jn 3,1-10) convidando todos à conversão. Lembra outro profeta, Natã, que entrou na casa do rei Davi e contou a história de um homem rico e um pobre (cf 2 Sm 12,1-14). Davi percebeu que ele era o homem rico que o profeta citava, e o outro, o pobre, era um oficial do exército que Davi colocara na frente de batalha para que morresse e pudesse ficar com sua mulher. Davi, consciente de seu pecado, disse a Natã: “Pequei contra o Senhor... (Sl 50,5). Karl Menninger comenta, ainda, a pregação de João, que convida à conversão (Mt 3, 1-12).
Na Grécia Antiga, os filósofos e os pregadores ensinavam uma filosofia de vida e uma ética. No séc. VI, durante o papado de Gregório Magno, os pecados capitais são apresentados como atitudes humanas contrárias às leis divinas. [Ilustramos essa página com a obra-prima Os sete pecados capitais, de Hieronymos Bosch (1440-1516). E na página 2, listamos os sete pecados]
O autor analisa três ciências que converteram a palavra “pecado” em outras: o Direito, em crime; a Sociologia, em irresponsabilidade coletiva; e a Psicologia, em sintoma. E assim, o homem se livra de uma responsabilidade pessoal.
O pecado em nossos dias passa a ser ligado exclusivamente à religião, como se fosse algo apenas do religioso e não do homem. O autor não quer negar a ciência, mas também não quer que ela seja uma muleta (que justifique o pecado).
E qual seria o pecado de nossa época? O psicanalista afirma: “a consciência que cada um tem de não ter pecado”, e o Papa Paulo VI utiliza as mesmas palavras para defini-lo.
Hoje os meios de comunicação falam em corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e tantas outras palavras como ganância, mas ninguém admite que “pecou socialmente”, e a inocência é avaliada por número de votos. O privado teve primazia sobre o público.
Há algumas décadas Chico Buarque disse em uma canção: “Não existe pecado do lado de baixo do Equador”, parece que as coisas mudaram neste hemisfério; ou então o lado de cá do Equador readquiriu a consciência e o sentido do pecado – que os últimos papas temiam haver sido perdido pela humanidade no final do milênio que passou (cf. Pecados, org.: Maria Clara Bingemer e Eliana Yunes)
Vivemos em outra época, mas é necessário que surjam profetas: juízes, jornalistas etc., e que cada um de nós pense em suas próprias vidas, pois o cristão tem a missão profética pelo Batismo. Algumas pessoas na igreja me perguntam: “Pequei; é só rezar?”. Eu respondo: “Para a graça de Deus há necessidade de a natureza humana reconhecer seus pecados”; a porta do coração e da consciência só se abrem por dentro...

• Concluo pedindo que rezem por mim, para viver na graça de Deus, pois muitas vezes me assemelho a S. Paulo “Não consigo entender nem mesmo o que faço, pois não faço aquilo que quero, mas aquilo que mais detesto...” (Rm 7,8). E me consolo com a carta aos Hebreus, quando fala do sacerdote: “Todo sacerdote escolhido entre os homens e constituído para o bem dos homens, oferece sacrifício pelos pecados próprios e do povo...” (Hb 5,1ss). E a vocês peço perdão, se um dia eu os ofendi, pois de Deus eu tenho certeza de Sua misericórdia.

(julho/2017)